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terça-feira, 10 de abril de 2012

Corredor deixa deficiência auditiva de lado e cai nas ruas atrás da felicidade

Mauricio Sá, 49 anos, não ouve desde os seis e se comunica através leitura labial e sinais, mas garante que isso nunca foi problema em sua vida

No início da adolescência, ansioso e inquieto, descobriu o karatê. Ao chegar à maioridade, entrou para um grupo de ciclistas. Quando entrou na casa dos 40, passou a levar a corrida de rua a sério. Essas são as modalidades que Maurício Sá, 49 anos, escolheu para se dedicar e mostrar que tudo é possível quando se tem força de vontade. O analista de sistemas no Vale do Aço, interior de Minas Gerais, perdeu sua audição aos seis anos por conta de uma caxumba. Apesar disso, garante que a deficiência auditiva não o impede de nada.

Ele afirma que não fazia feio quando competia de bike, apesar de perder preciosos centésimos de segundo no início das provas. Para melhorar o desempenho, contava com a solidariedade dos professores que sinalizavam com os braços as largadas.

- A surdez, em si, não atrapalha. Alguns dos esportes exigem aptidão plena, o problema é que os organizadores não se adaptam. A minha vida esportiva começou numa época que não havia lei a favor dos deficientes. Se compararmos com hoje, diria que estamos numa situação bem melhor. Na época, contávamos com solidariedade e boa vontade das pessoas para que pudéssemos participar dos eventos, era apenas o assistencialismo e paternalismo - disse o mineiro divorciado e pai de duas adolescentes, uma de 16 e outra de 18.

Arquivo pessoal

Desde criança, o Maurício se comunica por leituras labiais e com a fala normal. Apesar da discriminação velada, foi um adolescente feliz. Ele revela que foi nessa época que descobriu que o esporte seria a sua vida, a salvação e superação.

- Era mais difícil na escola porque não havia uma pedagogia ou lei apropriada para receber os portadores de deficiências. Entretanto, nas primeiras aulas de educação física, descobri que o esporte era o meu mundo, o meu refúgio. Sentia-me igual aos colegas. Agora, não é diferente do passado. Eu durmo, acordo, respiro e morrerei pelo esporte - afirmou.

O atleta parou de praticar o karatê aos 32 anos, quando sua primeira filha nasceu. Nesse tempo, ficou apenas no futebol de campinho nos fins de semanas. Mais tarde, ao ter a segunda filha, voltou a praticar o duatlo e focar na corrida de rua.


Arquivo pessoal
- Eu era um sofrível zagueiro e havia momentos cômicos. Se fazia uma falta, o juiz apitava e eu continuava a jogada. Justificava-me ao juiz que era surdo, ele tinha a compaixão e me liberava do cartão amarelo (risos). Meus companheiros faziam a festa - contou o atleta.

Durante toda a sua vida, as dificuldades impostas pela limitação auditiva fez Maurício entender o significado e o sentido da palavra superação. Hoje, não seria diferente. Ele descobriu que poderia fazer algo, mesmo sem uma assessoria esportiva e começou as pesquisar sobre provas, alimentação e treinamento pela internet .

- Numa corrida, sou levado ao sentimento e à emoção. Sobreponho-me à lucidez e à razão. Haja adrenalina no meu sangue! Quando subo aos pódios, o sentimento é de utopia, de que conquistei o mundo e, logo, vem um raciocínio confuso de pensamento: “caramba, eu sou o cara “. É um momento único, deslumbrante e mágico - concluiu o atleta.



O atleta passa para suas filhas a importância da luta contra o preconceito (Foto: Arquivo Pessoal)

Como incentivo, Maurício fez questão de deixar uma mensagem para a pessoa que não se sente apta a realizar uma tarefa, mesmo sem sequer ter tentado.

"Antes de aconselhar a cada uma dessas pessoas que se consideram incapazes, diria que, em primeiro lugar, tentem descobrir a razão para a nossa existência. Provavelmente, nunca descobriremos. Então, faça o seguinte, numa manhã, abra a janela, faça sol, faça chuva, faça frio e veja como o dia é dinâmico e bonito. Vista um joging, calce um par de tênis, alimente-se adequadamente, alongue-se. Vá a uma rua prazerosa e corra pelo chão da vida. Deixe a adrenalina correr pelas veias e esquecerá o motivo da nossa existência e dos problemas do dia a dia. No fim da corrida, descobrirá que a dopamina flui na sua alma. Viva a vida como ela é: correr é mais que um esporte, é uma filosofia de vida".

Fonte: Globo Esporte

Deficientes se destacam pela vontade

Apesar das barreiras físicas ou mentais, eles estão se superando e provando que têm valor para o mercado de trabalho Graças à lei que estabelece cotas para a contratação de trabalhadores com algum tipo de deficiência, o mercado de trabalho teve uma grata surpresa. O desempenho dos deficientes tem agradado muito pela disposição e empenho demonstrado por eles nas empresas.

Especialistas ouvidos pela reportagem dizem que o bom desempenho é justificado pela determinação desses trabalhadores de mostrar que são capazes de desempenhar suas funções independentemente de suas limitações físicas ou intelectuais. Nessa tentativa de estar sempre provando que conseguem dar conta do recado, eles se superam e acabam por surpreender empregadores e colegas de trabalho.

A lei de cotas (8.213/91) estabelece que empresas com mais de 100 funcionários precisam ter em seus quadros uma porcentagem de trabalhadores com algum tipo de deficiência. Foi uma forma que os parlamentares encontraram de forçar a inserção dessas pessoas no mercado de trabalho. Algumas empresas de Bauru, como a Tilibra, por exemplo, contratam deficientes muito antes de isso se tornar uma obrigação. De acordo com a chefe de recrutamento, seleção e treinamento da empresa, Sandra Mello, apesar das deficiências físicas ou mentais, os níveis de produtividade e comprometimento desses trabalhadores são iguais a qualquer outro.

Ela cita um funcionário que tem síndrome de down e atua na empresa há 10 anos. Um exemplo de eficiência, pois, segundo Sandra, ele não estaria mais no emprego se não correspondesse às expectativas da empresa. “Eles não produzem menos por serem deficientes. São tão esforçados quanto os demais. E eles sabem que se não produzirem o esperado, não tem como mantê-los. Não é porque são deficientes que têm emprego garantido. Eles precisam mostrar serviço e se fizerem isso podem fazer carreira dentro da empresa”, comenta Sandra. Ela não soube informar quantos funcionários com algum tipo de deficiência existem atualmente na Tilibra, mas afirmou que é uma quantidade que está acima da cota mínima exigida por lei. Jean Carlos de Souza, 33 anos, trabalha há 12 anos na empresa. Há cerca de oito anos, sofreu um acidente e perdeu os movimentos do braço direito. Ele ficou cinco anos afastado. Segundo ele, foi um período difícil e de muita indefinição. Jean não sabia ao certo como seria sua vida dali para frente. Achava que sua incapacidade o deixaria fora do mercado de trabalho e chegou a pensar, inclusive, que teria de se aposentar por invalidez. Quando voltou ao trabalho na Tilibra, aos poucos, Jean foi percebendo que poderia sim ser útil à empresa. Se empolgou ao ponto de voltar a estudar e fazer novos cursos com o objetivo de aprimorar seus conhecimentos e se superar cada vez mais. “Minha ideia é mostrar que é possível evoluir sempre”, diz. O depoimento de Neusa Baptista, mãe de um deficiente que está no mercado de trabalho, mostra como essa inserção tem feito bem para eles e para a família como um todo. “Ao meu ver, a inclusão do deficiente físico no trabalho e de extrema importância. Como mãe de um deles, posso afirmar que é muito gratificante vê-los evoluir graças a esta oportunidade.

Meu filho começou a trabalhar com 21 anos de idade. Hoje, aos 27 anos, é uma pessoa responsável, sereno, colaborador e um excelente profissional, que me ajuda em todos os sentidos, inclusive o financeiro.” Segundo ela, o trabalho trouxe confiança ao filho e segurança no convívio com as outras pessoas, respeito e dignidade. Empresas ressaltam as qualidades Alto nível de responsabilidade, pontualidade e eficiência são algumas das qualidades apontadas pelo Grupo NP quando o assunto são seus colaboradores com deficiência.

A empresa, uma das maiores empregadoras de Bauru, tem um grupo grande de deficientes em seu quadro profissional. Portanto, tem condições de avaliar o desempenho deles ao longo dos últimos anos. Segundo Juliana Dorigo, gerente de recursos humanos da Paschoalotto Serviços Financeiros, as pessoas com deficiência apresentam interesse, cordialidade e comprometimento em suas atividades. Na empresa, eles atuam, basicamente, nas áreas de atendimento, administrativa e cobrança. “Geralmente, eles se mantêm muito tempo na empresa e se diferenciam pelo alto nível de responsabilidade em cumprir corretamente o seu horário de trabalho e as suas tarefas diárias”, revela. Para desenvolver profissionalmente esses colaboradores, Juliana conta que são realizados treinamentos sobre comportamento e trabalho em equipe, bem como atendimentos individuais com os interessados para auxiliar e orientar sobre suas dificuldades, adaptação ao ambiente de trabalho entre outros assuntos. A assistente social Célia Cristina Lobato, do Núcleo Integrado de Reabilitação e Habilitação do Centrinho-USP (Nirh), comenta que os empregadores têm se mostrado surpresos com o retorno que estão recebendo dos funcionários deficientes. “Antigamente, eles (empresários) tinham medo de contratá-los. Com o tempo, os deficientes mostraram que são plenamente capazes e, agora, as empresas nos ligam sem medo, pois sabem que podem contar com esses funcionários”, conta. “Teve um empresário que comentou que estava tão satisfeito com o desempenho dos deficientes que gostaria de ter uma sessão inteira só com esses funcionários”, completa.

A psicóloga Oleana Rodrigues Maciel de Andrade, também do Nirh, elogia a lei de cotas. Segundo ela, além da função social, ela serviu para abrir os olhos dos empregadores para a eficiência desses trabalhadores. “Antes, nós íamos atrás das empresas implorando trabalho para os deficientes. Hoje, são as empresas que vêm atrás de nós para contratá-los. A lei, aliada à eficiência dos deficientes, inverteu a situação”, disse. Para analista, resposta do trabalhador é melhor quando ambiente é receptivo A maneira como o funcionário deficiente é recebido no local de trabalho reflete diretamente na sua produtividade dentro da empresa. Se o ambiente é receptivo, as chances de ele se destacar são maiores. Por isso, a analista de recursos humanos Natacha Nishihara, da RH Assessoria, diz que não é apenas o deficiente que precisa de treinamento para entrar em uma empresa, mas a empresa também precisa estar preparada para recebê-lo de forma adequada. “Uma das maiores preocupações é aprimorar a humanização do local de trabalho”, afirma ela. “É um trabalho a longo prazo que inclui a questão da acessibilidade e da preparação da equipe de trabalho que recebe esses trabalhadores.” Natacha lembra que nem todas as empresas têm, por exemplo, em seu quadro de funcionários pessoas que saibam a linguagem de libras. “A humanização do local de trabalho passa pelo treinamento dos colaboradores para receber bem os deficientes, a adaptação das estruturas físicas e pelo oferecimento de condições para que eles desenvolvam suas funções corretamente”, aponta. Na opinião da analista, não adianta a empresa querer contratar um deficiente se os demais funcionários e a própria estrutura da empresa não estão preparados para recebê-lo. “A deficiência é um simples detalhe. Isso não interfere no desempenho.

Se forem lhe dadas condições de trabalho, o deficiente pode exercer bem sua função”, afirma. De acordo com Natacha, geralmente, os deficientes são chamados para exercer funções dentro dos setores operacional, administrativo e de telemarketing. Segundo ela, a remuneração normalmente é compatível com o que outros, com a mesma formação, recebem dentro da empresa. Inserção no mercado é vida nova Uma vida nova. É assim que as pessoas ouvidas pela reportagem definem a experiência de obter um emprego apesar das suas limitações físicas ou mentais. Jenifer Massae Baptista Nishida Silva, 31 anos, começou a trabalhar com 17. Atualmente, ela está atuando como auxiliar administrativo no setor de arquivos da Divisão de Saúde Auditiva do Centrinho/USP. Jenifer tem deficiência auditiva e é uma profissional capacitada pelo Núcleo Integrado de Reabilitação e Habilitação (Nirh). “Eu adoro o que faço. É muito gratificante poder trabalhar.

Gostaria de trabalhar mais. Aqui, consegui amigos e dinheiro para compra minha casa”, diz ela, toda feliz. Casada há cerca de um ano, Jenifer comemora por não ter de pagar aluguel. Segundo Inez Dias de Moraes, chefe do setor de arquivo, consequentemente chefe de Jenifer, elogia a postura da companheira de serviço e também sua capacidade de lidar com números e prontuários. “Ela é meu computadorzinho. Sempre que preciso lembrar de algo, pergunto a ela”, relata. “Ela tem uma cabeça muito boa e muita disposição. Não dou nota 10 para ela porque ninguém é perfeito, mas dou 9. Jenifer é muito prestativa, procura ajudar a todos. Ela não tem preguiça e isso faz diferença”, comenta Inez. Além de Jenifer, Inez trabalha e já trabalhou com outros deficientes. Ela conta que é uma característica deles essa disposição acima da média. “Devido às dificuldades, eles se esforçam o tempo todo para mostrar que são capazes”, avalia. Por sua vez, Shirley Veloso, 41 anos, encontrou uma nova motivação ao conseguir um emprego como recepcionista na empresa NP Full Service.

Há quatro anos, por conta de complicações durante uma cirurgia, ela perdeu os movimentos das pernas, tornou-se uma cadeirante e passou a conviver com todos os dilemas e dificuldades desse público. “Os seis primeiros meses após deixar de andar, foi um período difícil da minha vida”, revela. Shirley iniciou tratamento na Sorri e foi incluída nos cursos de capacitação para o mercado de trabalho. Ela passou por um treinamento para enfrentar as reações das pessoas diante de sua condição de cadeirante. Quando sentiu que estava preparada para voltar ao mercado de trabalho, começou a distribuir currículos. A expectativa durou dois meses. Foi quando a NP Full Services, que pertence ao Grupo NP, ligou pedindo que ela comparecesse para uma entrevista. Quando recebeu a notícia de que seria contratada, Shirley conta que houve uma transformação em sua vida. “Melhorou tudo. Melhorou minha cabeça, minha autoestima, minha família, aprendi coisas novas, fiz amizades. Enfim, minha vida melhorou 100%”, comenta. Segundo ela, a forma como a empresa a recebeu bem também contribuiu para ela se sentir bem e realizada. Tanto entusiasmo chamou a atenção e motivou elogios da gerente administrativa da NP Full Services, Andréa Merighi. “Shirley é uma ótima colaboradora, supera em qualidade e profissionalismo a função que exerce.” Jionatho Aparecido de Souza tem 28 anos e trabalha como auxiliar administrativo na HDI Seguros. A exemplo dos demais, a conquista do emprego foi um divisor de águas em sua existência. “Ao me integrar no mercado de trabalho eu tive várias conquistas, como igualdade profissional, familiar e até emocional porque o preconceito, de alguma forma, é derrubado e os desafios e planos podem ser alcançados”, destaca. Segundo ele, estar empregado tem um significado muito precioso para ele. “Sou casado e tenho dois filhos e um cachorrinho. É muito gratificante poder dar à minha família o sustento de cada dia, mesmo com todas as dificuldades da deficiência, e provar que é possível ser feliz e fazer minha família feliz”, orgulha-se. “E isso me acrescentou mais caráter.

Na verdade, me tornei um homem completo tanto no aspecto profissional quanto no pessoal. Hoje sou pai de família e trabalhador ‘completo’. E nisso encontrei mais força para lutar e acreditar que na fraqueza Deus nos faz forte”, ensina. Experiência de aprendizado mútuo A Zopone Engenharia e Comércio também adota a política de inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Atualmente, são vários os profissionais com algum tipo de deficiência que trabalham na empresa. De acordo com o Departamento de Responsabilidade Social, a experiência tem sido um aprendizado mútuo. A empresa entende que o relacionamento e a integração entre os colaboradores são fatores importantes para que a inclusão, de fato, aconteça, pois todos assumem responsabilidades.

A melhor oportunidade de integração, na avaliação da empresa, é justamente no convívio diário, quando o funcionário aprende a ter confiança no colega de trabalho, pois depende da conclusão de suas tarefas. De acordo com o Departamento de Responsabilidade Social, as pessoas que têm uma dificuldade física ou mental, assim como todos os demais colaboradores, são avaliadas pelo seu desempenho, tomam conhecimento das suas qualidades e pontos a serem melhorados no trabalho e, desta forma, poder vislumbrar crescimento dentro da empresa e na vida profissional. A empresa Brambilla possui dois deficientes em seu quadro de funcionários. Um está na empresa desde 2006 e cuida da distribuição de produtos de limpeza, usados na higienização dos ônibus. O outro integra a equipe de jardinagem desde 2009. “Ambos trabalham em perfeita harmonia com todos os outros colaboradores, com responsabilidades e produzem com qualidade”, informa a empresa. Baixa qualificação é maior obstáculo Com a lei de cotas, as pessoas com deficiência finalmente puderam mostrar que são competentes para desempenhar diferentes funções dentro das empresas. Oportunidades no mercado de trabalho não é mais problema.

A barreira, agora, é outra. A falta de qualificação devido à baixa escolaridade. Uma outra lei, que trata da presença de intérpretes dentro da sala de aula, deve corrigir uma outra distorção. Desta vez, nas escolas. Sem os intérpretes nas salas de aulas, os deficientes auditivos não conseguiam acompanhar o restante dos colegas na questão do aprendizado. Sem compreender o que os professores diziam lá na frente, não tinha como entender a matéria. Consequentemente, o aluno deficiente não aprendia e desistia de frequentar as aulas, ficando atrasado em sua vida escolar. E as empresas, para se enquadrar nas exigências dos padrões de qualidade, precisam ter em seus quadros funcionários com pelo menos o ensino médio. Algo que poucos deficientes conseguiram. “Às vezes, as empresas deixam de contratar porque precisam atender a alguns requisitos básicos, como a escolaridade de seus funcionários”, diz a assistente social Célia Cristina Lobato, do Núcleo Integrado de Reabilitação e Habilitação do Centrinho-USP (Nirh). Na opinião da psicóloga Oleana Rodrigues Maciel de Andrade, também do Nirh, é bem provável que mais esse obstáculo será superado em breve.

Ela acredita que a presença de intérpretes na sala de aula vai mudar o panorama da falta de escolaridade e capacitação dos deficientes. “Nós procuramos, inclusive, a família para conscientizar sobre a importância da escolaridade e de se fazer cursos profissionalizantes”, revela a psicóloga. De acordo com ela, com a inclusão no mercado de trabalho, essa exigência torna-se ainda mais importante e indispensável para os deficientes. A assistente social Cristina Lobato conta que alguns dos assistidos pelo Nirh fizeram cursos no Senai e hoje estão trabalhando na unidade da Volvo, em Pederneiras. Ao todo, são nove deficientes auditivos trabalhando lá. “O trabalho é importante para qualquer pessoa, mais ainda para os deficientes porque ajuda a superar o pensamento de que são incapazes. A oportunidade de trabalho mostra que eles conseguem. Com isso, eles se sentem mais valorizados, passam a ter uma outra imagem na sociedade”, avalia a psicóloga. O sentimento de realização pessoal e profissional é tão forte que, segundo Cristina, quando os assistidos estão de folga ou férias do trabalho, eles vão até o Nirh bem vestidos, muitos exibindo com orgulho a camiseta da empresa onde trabalham e mostrando uma felicidade e uma autoconfiança que emociona a todos.

Com a finalidade de contribuir para a formação dos deficientes, a Sorri, pioneira em reabilitação profissional em Bauru, tem oferecido cursos de capacitação. Atualmente, estão em andamento os cursos de garçom, auxiliar administrativo, atendente comercial e organizador de ambientes. Todos proporcionando vivências e práticas na função. Ainda há vagas para quem se interessar. Basta ligar para (14) 4009-1000. Os cursos são gratuitos. Por sua vez, a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) está com as inscrições abertas para o Programa de Educação Profissional para as pessoas com deficiência intelectual, nos cursos de auxiliar de cozinha, auxiliar de limpeza , auxiliar de escritório e empacotador de supermercado. Também estão abertas as inscrições para o curso de preparação para o trabalho para pessoas com deficiência física. Os interessados podem agendar pelo telefone (14) 3106-1252 o acolhimento com as profissionais Rose Carrara ou Sibele ou pessoalmente na Apae, na avenida José Henrique Ferraz 20-20, Jardim Ouro Verde.

Instituições oferecem treinamento Pensando em ampliar as oportunidades de encaminhamento e sucesso das pessoas com deficiência no mercado de trabalho, algumas entidades de Bauru estão investindo na qualificação dessas pessoas. “É fato a necessidade de investimento na qualificação profissional desta gama da população. Em decorrência desta preocupação, em 2012 firmamos parceria com a Secretaria do Bem Estar Social (Sebes) de Bauru, por meio do serviço de Inclusão Produtiva, para oferecer cursos teórico-práticos para pessoas com deficiência e população de baixa renda”, comenta a psicóloga e coordenadora do Programa de Educação e Reabilitação Profissional/Inclusão Produtiva da Sorri Fernanda Piovesan Dota. O Programa de Educação e Reabilitação Profissional (PERP) da Sorri atualmente é divido em três módulos. Os focos são aprendizagem específica e desenvolvimento de conhecimento técnico de acordo com os cursos ministrados; desenvolvimento pessoal que contribui para a autonomia dos usuários e oferece desde curso de etiqueta profissional até apoio psicológico; e habilidades gerenciais com noções de autogestão, identificação de função, busca e manutenção do emprego.

O PERP e outras instituições de Bauru, como o Centrinho e a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), também oferecem o serviço de assessoria às empresas contratantes, como seleção e encaminhamento de candidatos as vagas, análise de acessibilidade e adaptações, sensibilização e conscientização sobre as deficiências. Outro diferencial é o serviço de pós-colocação, que prevê o acompanhamento por equipe técnica especializada dos usuários inseridos no mercado de trabalho durante o período que for necessário. “Temos observado uma grande aceitação e empenho por parte das empresas para receber essa população demonstrando respeito à diversidade humana. E constatado que, na prática, as pessoas encaminhadas apresentam, de maneira geral, competências apropriadas, baixo absenteísmo e ótima produtividade”, frisa Fernanda.

Ela informa que no ano passado, o índice de retenção de emprego entre os deficientes encaminhados pela Sorri foi de 90%. “Percebemos que, com este trabalho, muitos são os resultados alcançados, podendo-se destacar a confiança nas potencialidades das pessoas com deficiência, encaminhamentos de alunos com maior comprometimento, abertura de novas oportunidades de emprego, maior aceitação e esclarecimentos de outros funcionários das empresas e da comunidade e extinção gradual do estigma de incapacidade”, comemora Sílvia dos Santos, pedagoga e coordenadora do Serviço de Educação, Encaminhamento, Acompanhamento e Supervisão Profissional (Seeasp) da Apae de Bauru. Segundo ela, os resultados mostram que vale a pena trabalhar com pessoa com deficiência. “A cada encaminhamento, nossos alunos nos surpreendem, mostram o quanto são capazes de transformar não só suas vidas, como as vidas de seus familiares. Os resultados mostram que a transformação é para todos”, afirma Sílvia. Já o Núcleo Integrado de Reabilitação e Habilitação (Nirh), ligado ao Centrinho, tem projetos nas áreas educacionais e profissionalizantes, auxiliando no desenvolvimento da autoestima dos pacientes. Crianças, adolescentes e jovens com problemas de surdez têm aulas de libras, língua portuguesa escrita, atividades expressivas, aulas de informática e de educação profissional, além da colocação e acompanhamento no mercado de trabalho. A equipe dos programas é formada por pedagogos, fonoaudiólogos, psicólogos, assistentes sociais, além de instrutor de libras. Adilson Camargo Fonte: JCNET

Senado reduz tempo de serviço para pessoa com deficiência se aposentar

O Senado aprovou na tarde desta terça-feira (3) projeto de lei que reduz o tempo de contribuição e a idade para pessoas com deficiência se aposentarem. Pela proposta, que ainda precisa ser novamente analisada pela Câmara dos Deputados, haverá um tempo de contribuição diferenciado, dependendo da gravidade da deficiência.

Se for leve, será de 30 anos para homens e 25 para mulheres; se for moderada, será de 27 anos para homens e 22 para mulheres; e se for grave, será de 25 anos para homens e 20 para mulheres. A idade mínima, para ganhar o benefício integral, em qualquer tipo de deficiência, seria de 60 anos para homens e 55 anos para mulheres.

Atualmente, a mesma regra vale para todos os trabalhadores da iniciativa privada: homens deixam o serviço após 35 anos e a mulher, 30 anos de contribuição. A idade mínima é de 65 e 60 anos (no caso de trabalhadores rurais, a idade mínima é de 60 e 55 anos, respectivamente).

A aferição do grau de deficiência seria feita por peritos do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A mudança seria válida apenas para filiados ao Regime Geral da Previdência Social.

O projeto foi aprovado com o voto favorável dos 54 parlamentares presentes em plenário na tarde desta terça. Por ter sofrido alterações no Senado, a proposta será encaminhada novamente para análise da Câmara dos Deputados, de onde foi originada a matéria.

O projeto foi analisado pelas comissões de Direitos Humanos, de Assuntos Sociais e pela Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. O relator na última comissão, senador Lindbergh Farias (PT-RJ), apresentou um substitutivo que adequou o conceito da pessoa com deficiência. Ao invés de ser considerada uma doença, a deficiência passou a ser considerada um impedimento de longo prazo, de natureza física, mental, intelectual ou sensorial.

Por acordo dos parlamentares presentes no plenário do Senado, a votação foi invertida e ocorreu antes da discussão da proposta. Assim que a senadora Marta Suplicy (PT-SP), que presidia a sessão, leu o placar da aprovação, os parlamentares presentes aplaudiram a aprovação.

Fonte: http://g1.globo.com/politica/

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Deficientes relatam dificuldades e desafios em relacionamentos amorosos.

As dificuldades e desafios enfrentados por deficientes quando o assunto é namoro são tema de uma série transmitida pela TV britânica nesta semana. Em diversos relatos, deficientes físicos e mentais contam as barreiras que têm de superar para conquistar uma vida amorosa bem-sucedida. Adrian Higginbotham, de 37 anos, conta que para ele, que é cego, as dificuldades começam no primeiro contato, o ponto de partida para qualquer relacionamento.

"Você não pode entrar em uma sala de modo casual e dar aquela olhada. Você não pode sorrir para alguém que você já viu duas vezes anteriormente passando pela rua", diz Higginbotham.

Com um título provocante, o programa "The Undateables" (que poderia ser traduzido como "Os Inamoráveis") conta histórias como a de Higginbotham e virou alvo de discussões acaloradas nas redes sociais principalmente por conta do título.

O programa mostra ainda uma agência de namoros especializada em pessoas com dificuldade de aprendizagem, a "Stars in the Sky", que assegura que seus clientes cheguem seguros ao local do encontro e os ajuda a encontrar "a pessoa certa".

A agência diz já ter organizado mais de 180 encontros desde 2005, com um saldo de um casamento, uma união entre pessoas do mesmo sexo, três noivados e 15 relacionamentos sérios.

Reações

O programa mostra que, apesar de muitos deficientes estarem casados e felizes ou não terem dificuldades para namorar, outros enfrentam uma gama variada de reações e, às vezes, atitudes estranhas, principalmente quando o par não sofre de deficiência.

Lisa Jenkins, de 38 anos, relata sua experiência em um encontro com um amigo de um amigo que não sabia que ela tinha paralisia cerebral.

"Nós entramos em um bar e ele imediatamente desceu os degraus diante de nós. Eu tentei descer, mas simplesmente não consegui. Não havia corrimão", conta.

Quando seu acompanhante perguntou se algo estava errado, Jenkins teve de contar sobre sua paralisia cerebral.

"Eu podia ver a mudança em seu rosto. Ele ficou instantaneamente menos atraído por mim", diz.

"Eu já tive homens que se sentiam atraídos por mim, mas achavam que havia algo de errado com eles por isso."

Jenkins conta que já chegou a ouvir de um potencial pretendente que ele "sempre teve interesse por sexo bizarro".

Em uma sondagem feita em 2008 pelo jornal britânico The Observer, 70% dos entrevistados disseram que não fariam sexo com um deficiente.

Shannon Murray, uma modelo na casa dos 30 anos, há 20 em uma cadeira de rodas, conta que, quando era adolescente, alguns rapazes lhe ofereciam uma bebida e em seguida perguntavam se ela ainda podia fazer sexo.

Internet

O programa discute também a era dos encontros pela internet e um novo dilema surgido com ela: um deficiente deve revelar sua condição imediatamente ou esperar que as pessoas o conheçam melhor antes de contar sobre sua deficiência.

Murray - que tem sempre em seu telefone uma lista de bares e restaurantes com acesso fácil para cadeiras de rodas, com medo de parecer pouco independente em um primeiro encontro - diz que já fez os dois.

Ela conta que em apenas uma ocasião um pretendente resolveu abandonar a relação após descobrir que ela era deficiente.

Murray diz que tentou também a abordagem oposta, colocando em um site de relacionamentos comum uma foto em que sua cadeira de rodas era bem visível e uma frase bem-humorada, dizendo que, se o interesse da pessoa era escalar o Everest, ela não poderia ir junto, mas ficaria no campo base e tentaria manter a barraca aquecida.

"Esperava que, revelando minha deficiência assim, no início, geraria menos interesse, mas acabei recebendo mais respostas do que quando escondia a cadeira. Fiquei entre as cinco mulheres que receberam mais atenção no site naquela semana", conta.

Deficientes visuais encenam Paixão de Cristo nas ruas de Fortaleza

Um grupo de 53 deficientes visuais encenou a Paixão de Cristo na tarde desta terça-feira (3) pelas ruas de Fortaleza. O espetáculo começou a ser interpretado há 15 anos como atividade da Sociedade de Assistência aos Cegos (SAC) e, atualmente, é um dos momentos mais esperados pelos alunos da instituição e por espectadores do Bairro Monte Castelo, zona norte da cidade.

“É gratificante sentir que a gente está contando a história de Jesus e está passando emoção para as pessoas”, conta Márcio Wanderson do Nascimento, 20 anos, que interpreta Jesus Cristo pela primeira vez neste ano depois de se destacar em espetáculos passados. Mesmo com a visão parcial, o protagonista diz que não teve nenhuma dificuldade para percorrer as ruas durante as 14 estações da Via Sacra e carregar a cruz de madeira na Avenida Bezerra de Menezes, uma das mais movimentadas de Fortaleza.

Mensagem
Antes de Márcio Wanderson assumir o papel, o professor de informática da SAC, Paulo Roberto Cândido de Oliveira, interpretava Jesus desde 2007, ano em que a encenação passou a ser feita nas ruas ao redor da instituição. “Por sair do padrão, a mensagem da Paixão de Cristo é muito mais forte. Mostramos que todas as pessoas são iguais e podem construir seu próprio caminho”, afirma o professor de 51 anos formado em engenharia elétrica e com baixa visão.

A encenação nesta terça-feira (3) durou 45 minutos e foi audiodescritiva para que os atores e espectadores com deficiência visual compreendessem cada estação da Via Sacra. De acordo com a coordenadora pedagógica da SAC, Rutilene Sousa, os alunos vinham se dedicando há mais de um mês para a apresentação. Nos primeiros anos, a coordenadora lembra que os participantes tinham de ser escolhidos e que o figurino era emprestado das igrejas.

“Hoje, os alunos pedem para fazer parte da encenação e já temos nossas roupas. Com essas atividades, a gente consegue resgatar a autoestima e eles acabam percebendo que podem muito mais”, diz. A SAC foi fundada em 1942 e, atualmente, atende 256 alunos com deficiência visual de três anos a 83 anos do Ceará.

Fonte: http://g1.globo.com/ceara/

Fotógrafa que nasceu cega registra uma imagem por dia

A fotógrafa americana Amy Hildebrand nasceu cega por causa do albinismo. Na infância e na adolescência, ela passou por tratamentos médicos e passou a enxergar algumas cores, formas e sombras. Apesar das limitações de sua visão, Amy optou por se graduar em fotografia.

Em 2009, a fotógrafa iniciou um projeto de publicar mil fotos em mil dias no blog With Little Sound (em inglês). A cada 30 dias, ela escreve um pequeno texto no site.

'Eu quero me refletir como uma só pessoa; alguém que vai crescer, ter filhos, envelhecer e morrer. Nem todos os meus dias serão bons, nem todas as minhas fotos serão boas, mas elas irão me refletir', Amy escreveu em um dos textos do blog.

'Para mim, o período mais dificil de fotografar foi quando meu padastro foi diagnosticado com câncer terminal. Mas, depois de sua morte, tentei ser o mais positiva possível', disse à BBC Brasil.

Fonte: http://g1.globo.com/mundo/

Cegos e cadeirantes enfrentam ‘maratona de obstáculos’ em SP

Vicente Aparecido caminha diariamente, e com cautela, pelas ruas e avenidas do bairro Vila Remo, na Zona Sul de São Paulo. Como a maioria dos pedestres, ele se irrita com os obstáculos encontrados pelo caminho, como buracos, lixo e fezes de cães. Por ser cego, o homem de 38 anos considera um verdadeiro desafio andar pela região, principalmente pela Estrada do M’Boi Mirim.

Na via, a principal e mais movimentada do bairro, os perigos são constantes. Enquanto agita rente ao chão e de um lado para o outro sua bengala, ele logo encontra lixo e entulho no meio da calçada. Para superar o obstáculo, se aproxima da rua. “Coisas assim são arriscadas. Eu fico muito perto dos carros e posso ser atropelado”, disse, enquanto caminhava a centímetros do meio-fio.

Aparecido é apenas um dos cerca de 1,35 milhão de pessoas com algum tipo de deficiência que vivem na capital paulista. O número corresponde a 12% da população paulistana, segundo a Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida. Os que mais sofrem são os cadeirantes e os cegos. Enquanto os primeiros precisam muitas vezes mudar o trajeto por conta de obstáculos como entulho no meio da calçada ou buracos, os deficientes visuais dependem da boa vontade de outras pessoas para caminhar.

Atravessar uma movimentada via como a Estrada do M’Boi Mirim, por exemplo, tarefa arriscada até para quem enxerga, torna-se algo quase suicida para pessoas como Aparecido. “Você também depende de ajuda para pegar ônibus e para descer no ponto certo. O pessoal do bairro é bem legal comigo. Mas também não tenho vergonha de pedir ajuda”, disse.

Uma medida paliativa e necessária é a instalação de mais semáforos sonoros pela cidade. De acordo com a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), apenas um dos 6.146 cruzamentos com semáforos existentes em São Paulo conta com esse equipamento especial. Em fase de testes, ele está situado na Rua Conselheiro Brotero, na Barra Funda, Zona Oeste. De acordo com a CET, a rua foi escolhida para abrigá-lo por ficar próximo à Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual (Laramara).

Especialistas ouvidos pelo G1 disseram, no entanto, que isso não garante a segurança dos cegos, pois há sempre a possibilidade de um “apressadinho” desrespeitar as regras de trânsito e parar em cima da faixa de pedestre ou, situação pior, ultrapassar o sinal vermelho. “A falta de educação, que para a gente que enxerga é ruim, para eles é impraticável”, disse a ortoptista (especialista em distúrbios visuais) Eliana Cunha Lima, gerente de serviços especializados da Fundação Dorina Nowill. “Na correria, esbarram e quebram bengalas sem querer. Ainda há muito para desenvolver.”

Até quem tem boa vontade precisa tomar cuidado para não prejudicar o deficiente visual. “Cego não é surdo. As pessoas chegam berrando para conversar com a gente”, disse Aparecido. “E quando alguém quer ajudar, à vezes vem pegando no braço. O deficiente visual não vê que tem alguém se aproximando. Quando a pessoa chega, pega no meu braço, eu acabo levando susto.” Apesar dessas ações atrapalhadas, ele disse apreciar o auxílio recebido. “Costumo dizer que não tem gente ruim. O que tem no mundo é gente despreparada.”

A abordagem ideal é simples. “Não precisa berrar nem pegar no braço. Basta perguntar se preciso de ajuda. Eu respondo que sim e peço para pegar no braço dela, não o contrário. Assim eu fico mais seguro”, afirmou Aparecido. “O pior é quando a pessoa já pega no braço e sai andando. Assim eu me sinto muito inseguro.”

Mas o que mais Aparecido teme dentre todos os obstáculos existentes são os orelhões. “A gente não consegue localizar com a bengala. Eu já acabei entrando no orelhão. Às vezes a gente se machuca”, afirmou o homem, que por causa de um glaucoma, começou a perder a visão aos 16 anos e ficou totalmente cego no começo de 2011.

A melhor solução apontada é a instalação de pisos táteis ao redor do orelhão – como ocorre em todos os equipamentos instalados na Avenida Paulista. Os pisos táteis são facilmente identificáveis pela cor amarelada e pelo formato: tracejado (direcional, que serve para indicar o caminho do deficiente) ou pontilhados (para alertar a respeito de obstáculos como rampas e degraus).

“Quem deve fazer isso é o munícipe, desde que o orelhão esteja em sua calçada, ou a Prefeitura, quando ela reforma toda a calçada”, disse a arquiteta cadeirante Silvana Cambiaghi, secretária-executiva da Comissão Permanente de Acessibilidade da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida. Além da Paulista, a secretária citou como exemplo de via adequada aos deficientes a Avenida Brigadeiro Faria Lima. Na reforma que atualmente é feita em suas calçadas, a Prefeitura instalou pisos táteis em toda sua extensão

Mobilidade
Quem também sofre com os costumeiros buracos nas calçadas e outras barreiras é o remador Luciano Luna de Oliveira, de 34 anos. Cadeirante desde os 17 anos, quando foi baleado na porta da escola em que estudava, na Brasilândia, Zona Norte de São Paulo, o atleta chega a se irritar ao circular pela Vila Mariana, na Zona Sul da capital.

Mesmo no bairro de classe média, os problemas nas vias são semelhantes aos encontrados na periferia: degraus, buracos, árvores e postes no meio do passeio. Todos esses obstáculos aumentam a probabilidade de acidentes.

“Temos muitos relatos de queda. Pessoa que caiu em um buraco, ou que teve o andador ou a muleta chutado. De paciente que se assustou com carro quando atravessava a rua e que caiu por isso”, disse a fisioterapeuta Clarissa Barros, supervisora do setor de fisioterapia de adultos da Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD) central, também situada na Vila Mariana.

Oliveira disse já ter perdido a conta de quantas vezes caiu na rua. Fora os machucados, o que mais o incomoda são os danos que sua cadeira de rodas sofre nesses acidentes. “Já perdi muitas cadeiras por causa de buraco. Às vezes a cadeira não dura nem um ano”, disse. O prejuízo é grande. “A que eu uso atualmente, esportiva, custa R$ 3 mil. Mas tem uns modelos que valem uns R$ 4 mil, R$ 5 mil.”

As condições em que se encontram as calçadas, segundo a supervisora da AACD, acabam minando o entusiasmo dos deficientes. “Muitas vezes nós reabilitamos o paciente aqui na instituição, ele sai conseguindo se locomover, mas acaba ficando limitado, não saindo muito, não se socializando, porque tem receio do que vai encontrar na rua.”

De acordo com a Secretaria de Coordenação das Subprefeituras, a responsabilidade pela construção e manutenção das calçadas é do proprietário e do locatário do imóvel. A largura mínima para garantir a passagem das pessoas deve ser de 1,20 metro. Quem descumpre a norma pode receber multa de R$ 300 por metro linear (o dono de uma loja que tem calçada danificada de 20 metros de extensão, por exemplo, receberá multa de R$ 6 mil).

Balcões
Além dos problemas nas vias já citados, os deficientes sofrem com balcões muito altos, portas de lojas estreitas que impossibilitam a passagem de uma cadeira de rodas e escadas em frente a estabelecimentos. Outro fator que os desestimula são as adaptações (muitas vezes malfeitas) em estabelecimentos como cinemas, teatros e bares, que geralmente separam os piores lugares para deficientes físicos. “Parece que as pessoas que fazem a adaptação não entendem exatamente as necessidades da nossa população”, disse a especialista.

Mas o que realmente tira do sério o atleta Oliveira é quando pessoas sem nenhuma deficiência utilizam espaços reservados a quem tem alguma dificuldade de locomoção. “Banheiro público é outro problema. Muitas vezes os adaptados estão ocupados. Então eu prefiro fazer as necessidades antes de sair de casa”, afirmou. Dono de um veículo adaptado, ele disse que é comum encontrar vagas especiais ocupadas em shoppings e supermercados. “Às vezes você vai estacionar e o cara para na vaga e sai andando do carro, sem nenhuma deficiência. Os caras não se ligam.”

Essa falta de consciência em relação às deficiências alheias, na opinião da fisioterapeuta Clarissa, decorre principalmente do desconhecimento das dificuldades enfrentadas. “As pessoas muitas vezes não conhecem as limitações físicas e isso faz com que elas não as respeitem. Isso [conhecimento das deficiências] devia vir desde a educação dentro de casa, nas escolas, e das leis que deveriam ser mais seguidas e mais rígidas.”

Transporte
Se a locomoção nas calçadas é complicada, a situação nos ônibus da capital, segundo os especialistas e os deficientes, não é tão diferente. O problema maior não é a quantidade de veículos adaptados - de acordo com a São Paulo Transporte (SPTrans), dos mais de 15 mil ônibus da cidade, 7.662 são acessíveis (o que corresponde a cerca de 51% da frota) -, mas a qualidade do serviço.

O cego Aparecido disse que, sempre que entra num coletivo, é auxiliado para sentar nos assentos reservados a deficientes e idosos. O problema ocorre quando ele precisa descer. Além da lotação acima da média, que dificulta sua locomoção no interior do veículo, motoristas geralmente param distantes dos pontos. “Para quem enxerga tanto faz se ele para a alguns metros da calçada ou fora do ponto, mas para mim isso dificulta muito.”

Quem tem dificuldade em se locomover também sofre, principalmente com os solavancos e as freadas bruscas. “Uma vez quase caí no ônibus. Se eu não me segurasse, teria caído”, contou Oliveira. Dependendo do horário – e da boa vontade do motorista e do cobrador –, ele acaba sem auxílio para amarrar sua cadeira ao espaço reservado aos cadeirantes.

Já as composições da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) e do Metrô recebem vários elogios. “Os deficientes têm assessoria maior no metrô e nos trens, com auxílio de funcionários”, disse a ortoptista Eliana.

Aparecido gosta dos serviços prestados pelos metroferroviários. Sempre que chega a uma estação, ele aguarda um funcionário levá-lo a uma plataforma até que uma composição chegue. Dentro do vagão, senta-se nos assentos preferenciais e se levanta assim que ouve o condutor anunciar a estação onde irá descer. “Quando eu saio, já tem outro funcionário me esperando para levar para a saída da estação. Eles são bem organizados.”

Fonte: http://g1.globo.com/ (Paulo Toledo Piza)